“Chega de apontamentos”: Catarina Gomes e a literatura como forma de honrar as histórias e as pessoas
No passado dia 27 de março, Catarina Gomes foi a escritora convidada do Clube de Leitura Entrelinhas, da Escola Superior de Comunicação Social (ESCS), organizado em parceria com o Clube de Leitura LEReduca, da Escola Superior de Educação de Lisboa (ESELx), onde se realizou o encontro.
Catarina Gomes é jornalista e escritora, tem uma visão otimista da leitura e vê as redes sociais como um possível aliado. Gosta de escrever com tempo e é fascinada pelas questões de saúde mental.
A sessão do Clube de Leitura, que contou com 14 participantes, a maioria a assistir online, foi conduzida por Antónia Estrela, professora na ESELx e diretora do Centro de Línguas e Cultura (CLiC) do IPL.
Um policial poético
Um dos livros de inspiração para a conversa foi Coisas de Loucos – O que eles deixaram no manicómio, editado pela Tinta-da-china.
Nesta obra, Catarina Gomes parte da descoberta acidental de uma caixa de objetos de antigos doentes do primeiro hospital psiquiátrico português, Miguel Bombarda, para “resgatar do esquecimento a vida de doentes que ao longo de décadas ali permaneceram confinados”, lê-se na sinopse.
A autora levou oito anos para escrever o livro, um “policial poético”, como descreve. Fê-lo durante as folgas, enquanto era jornalista no Público. Queria escrever sem pressa e saborear o processo. Se uma resposta demorasse seis meses a chegar (como chegou a acontecer), queria respeitar esses tempos.
Quanto à escolha do tema, a escritora explica que sempre se sentiu atraída pelos assuntos de saúde mental, acrescentando que esta atração surge “por medo”. Enquanto trabalhava na investigação para este livro, pensava: “Deixa lá ver como é que eles enlouqueceram, para ver se não me acontece”.
“Todos estamos tão à beira disto”, comenta a escritora, referindo-se ao risco de perda de saúde mental. É “quase arrogante” olharmos com distância, acrescenta.
Quanto questionada por um dos participantes da sessão sobre se deve haver reparações históricas “das pessoas que foram aprisionadas, doentes e não doentes”, a convidada partilha que, para si, é complicado usar as lentes de hoje para avaliar circunstâncias históricas em que os tratamentos não se guiavam pelas práticas atuais e em que os profissionais provavelmente faziam o melhor que sabiam.
Ainda assim, a propósito do caso de Valentim de Barros, um talentoso bailarino português que esteve internado no hospital durante quase quatro décadas por ser homossexual, Catarina Gomes lembrou que, precisamente no dia a seguir à sessão do Clube de Leitura, seria inaugurada uma Sala Estúdio com o nome de Valentim de Barros no Largo Residências, uma cooperativa cultural instalada nos Jardins do Bombarda. O programa de tributo a Valentim incluiu, ainda, uma série de concertos dedicados ao bailarino.
Para a escritora, “honrar as histórias é uma forma de reparação histórica”.
“Queria abeirar-me das pessoas sem as menorizar”
O segundo livro selecionado para inspirar esta sessão do Clube de Leitura foi Um dedo borrado de tinta, Histórias de quem não pôde aprender a ler, da coleção de Retratos da Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Nesta obra, Catarina Gomes retrata a vida e o quotidiano de habitantes de uma aldeia portuguesa que não tiveram oportunidade de aprender a ler e a escrever. Estas histórias “são quase arqueologia social, testemunhos de um mundo prestes a desaparecer”, lê-se no livro.
“Como é que é viver sem saber ler nem escrever?”, questionou-se a autora, pensando nas suas próprias avós. Esta era também a “frase longa” que a escritora usava quando se aproximava das pessoas em Casteleiro, freguesia no distrito da Guarda, para evitar expressões como “analfabetismo”.
“Queria abeirar-me das pessoas sem as menorizar”, conta a escritora. Catarina Gomes nem sempre conseguiu obter a resposta que procurava. Nalguns casos, as pessoas preferiram falar das conquistas nas suas vidas a ficar presas ao “pormenor” de não saber ler nem escrever; noutros casos, não se quiseram expor. “Chega de apontamentos”, disse-lhe uma senhora, afastando-a para fora de casa.
O comentário, que Catarina Gomes não estranhou, acaba por estar relacionado com uma preocupação da escritora no seu processo de escrita: era preciso contar estas histórias garantindo sempre que a dignidade das pessoas ali retratadas não era beliscada.
Mais uma vez, a literatura como forma de honrar as histórias e as vidas.
“As redes sociais podem ser amigas da leitura”
Durante a sessão, falou-se ainda sobre os hábitos de leitura na atualidade.
A convidada tem “uma visão otimista da leitura”. A escritora sublinha que o Instagram “está cheio de instagrammers com paixão” pela leitura, os ebooks e os audiobooks também estão a fazer caminho, os podcasts de livros proliferam e “há clubes de leitura por todo o lado”.
Talvez a relação com os livros e a leitura dos jovens hoje não seja a mesma, o modo de expressar a partilha é muito diferente. Agora, é através das plataformas digitais, e nesse sentido “as redes sociais podem ser amigas da leitura”, acredita a escritora, que diz receber muitíssimas mensagens e comentários sobre os seus livros.
Quanto ao futuro, a escritora está a trabalhar no seu próximo livro, que será sobre o pai, que morreu com 47 anos. Ainda sem data para publicação, Catarina Gomes partilha que este é, até agora, “o mais autobiográfico e doloroso dos livros”.
Finalmente, desafiada a comentar algumas das obras recentemente adquiridas pela biblioteca da ESELx, Catarina Gomes selecionou O caderno proibido, de Alba de Céspedes; O país dos outros, de Leila Slimani; Filho da mãe, de Hugo Gonçalves; e Eliete, de Dulce Maria Cardoso. Todas elas, histórias de profunda humanidade e que nos podem tornar “mais empáticos”.