Entre o fim do mundo e o “eu estive aqui”: Uma conversa com Dulce Maria Cardoso

No passado dia 6 de março, realizou-se a 8.ª sessão do Clube de Leitura EntreLinhas, sob o título “Estás aí? Ler como se fosse o fim do mundo”, na Escola Superior de Comunicação Social (ESCS-IPL). A sessão foi organizada pela Cátedra UNESCO Comunicação, Literacia Mediática e Cidadania e contou com a presença de cerca de 25 participantes. 

A convidada foi Dulce Maria Cardoso, autora multipremiada de obras como O Retorno ou Eliete, numa conversa moderada por Isabel Lucas, docente da ESCS, jornalista e também escritora. 

Inspirada pela experiência pessoal e literária da convidada, a sessão proporcionou uma reflexão sobre o poder transformador da leitura. 

Recordando episódios da sua infância em Angola no período da descolonização, Dulce Maria Cardoso começou por evocar uma expressão da sua mãe, “isto parece o fim do mundo”, numa coincidência com o subtema do encontro – “ler como se fosse o fim do mundo”. A convidada assinalou que, mesmo em contextos de incerteza e conflito, o ser humano responde “com compulsão de vida”: “Habituas-te a tudo. E respondes com vida, com festas antes e depois do recolher obrigatório”. A sensação é de que “é agora ou nunca”, reforçou a escritora. 

A partir destas memórias, foi feita a ponte para uma reflexão sobre a leitura como gesto vital e profundamente humano.  

Dulce Maria Cardoso sublinhou que “há um antes e um depois da leitura de um livro” e que a leitura foi o seu “superpoder”, reforçando o papel dos livros na construção da (sua) identidade. 

“Eu percebi que queria passar a vida a contar histórias”, partilhou a convidada, recordando que inventava histórias sobre os seus dias na escola, “porque achava uma massada dizer sempre a mesma coisa”. Também quando foi para Trás-os-Montes, recorreu à imaginação para tornar mais leve um quotidiano que “era muito difícil”. Nas suas idas à fonte, contou a escritora, transformava as pessoas com quem se cruzava em personagens e ia construindo histórias no seu imaginário. 

Quanto aos seus livros, a autora falou sobre a dificuldade de entender as histórias como tendo princípio e fim. “Todos os meus romances começam como se já viessem de trás e acabam como se continuassem”, explicou, sublinhando a noção de continuidade, de história nunca totalmente concluída, que a escritora quer continuar a explorar. 

Já no final da sessão, o tema do encontro – “Estás aí?’” – foi reafirmado quando a convidada referiu a última frase de O Retorno – “Eu estive aqui” –, como uma interpelação direta aos leitores e um convite à presença plena em cada momento. 

A sessão foi de entrada livre e aberta a toda a comunidade. No final, os participantes tiveram ainda oportunidade de levar um livro emprestado à sua escolha, prolongando assim a experiência de leitura além do encontro. 

A próxima sessão do EntreLinhas será no dia 23 de abril, Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor. 

Saiba mais sobre o EntreLinhas no site da Cátedra. 

Foto pelo Serviço de Comunicação da ESCS (SCom)