Descobrir novas histórias sobre as alterações climáticas na Noite Europeia dos Investigadores
“E se fosse jornalista climático por uma noite?” Este foi o desafio lançado aos participantes da Noite Europeia dos Investigadores que passaram pela atividade da Cátedra UNESCO Comunicação, Literacia Mediática e Cidadania (ESCS-UPL/LIACOM), no dia 25 de setembro, no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa.
Quase meia centena de pessoas, dos 8 aos 80 anos, aceitaram o desafio e exploraram de que forma as notícias podem abordar diferentes dimensões dos impactos das alterações climáticas.
A atividade procurava mostrar que as alterações climáticas não são apenas um tema científico ou ambiental, mas uma lente para observar várias áreas da vida pública: da saúde à política, da economia ao desporto. A proposta era também falar de como os jornalistas devem conseguir “traduzir” dados e conhecimento científico em notícias que aproximem a crise climática da vida quotidiana das pessoas.
A partir de dados partilhados pela equipa, os participantes foram desafiados a pensar numa ideia de reportagem, entrevista, artigo, vídeo, podcast ou outro formato jornalístico, procurando um ângulo próximo da realidade em que vivem.
Depois de escolhido o tema, era preciso identificar os elementos essenciais para construir a peça: que fontes deveriam ser ouvidas, que locais seria importante visitar, que imagem poderia acompanhar a notícia, qual o formato mais adequado e, finalmente, qual seria o título.
Dos efeitos do calor nas crianças ao planeamento urbanístico
A diversidade do público que frequenta a Noite Europeia dos Investigadores refletiu-se na variedade de temas sugeridos para as notícias.
A saúde foi um dos ângulos identificados pelos participantes. Inês, uma jovem de 13 anos, partilhando que se sente mal com o excesso de calor, sugeriu que fosse produzido um vídeo para explicar como o calor afeta o organismo das crianças e que se explorasse que soluções estão a ser consideradas pelas escolas para evitar que os alunos sejam expostos a temperaturas demasiado elevadas.
Também a partir da questão do calor, uma participante mais velha, Madalena, propôs investigar se a reforma laboral do Governo contempla medidas de proteção dos trabalhadores durante as ondas de calor, particularmente aqueles que estão mais expostos a temperaturas elevadas, como os trabalhadores agrícolas, da construção civil e da higiene urbana.
A mesma participante, pela sua ligação à área da História da Arte, comentou também que poderia ter interesse perceber de forma as alterações nas condições de temperatura e humidade associadas às mudanças do clima podem afetar as técnicas de conservação das obras de arte.
Já Sara e Maria Inês, mãe e filha, ainda com a memória do “comboio de tempestades” que afetou o país em janeiro e fevereiro deste ano, gostariam de ver uma reportagem que procurasse perceber se foram introduzidas mudanças no planeamento urbanístico depois dos acontecimentos do início do ano. O título seria: “Devemos planear melhor as cidades perante cheias mais frequentes?”
Mas as conversas não ficaram pelos projetos de notícia. Ao longo da noite, outras pessoas foram também procurando a equipa para discutir ideias sobre jornalismo, comunicação de ciência e o impacto da inteligência artificial nas redações, entre outros temas. O espaço acabou, assim, por se transformar num ponto de partida para conversas mais amplas sobre o papel do jornalismo na forma como a sociedade compreende os problemas complexos da atualidade.
Esse era, precisamente, um dos objetivos: promover o debate, a literacia climática e mediática, o pensamento crítico e uma participação cívica mais informada.
A atividade foi dinamizada pelas investigadoras do LIACOM Vera Moutinho, coordenadora da proposta, Fernanda Bonacho, titular da Cátedra, e Fátima Lopes Cardoso, docente de Jornalismo na ESCS, e por Margarida Alpuim, da equipa da Cátedra.
A única disciplina de Jornalismo Climático no país
O projeto de investigação apresentado através da atividade da Cátedra UNESCO da ESCS/LIACOM na Noite Europeia dos Investigadores foi o “Jornalismo Climático na Universidade: um projecto transfronteiriço”, uma iniciativa bilateral de intercâmbio coordenada pela investigadora Vera Moutinho (ESCS/LIACOM) e desenvolvida, em 2024, em parceria com a Universidade Metropolitana de Oslo (OsloMet), na Noruega, com financiamento do programa EEA Grants.
O projeto teve como objetivo promover e fortalecer o conhecimento de estudantes e docentes de jornalismo no ensino superior na área do jornalismo climático. No âmbito da iniciativa, foi criada uma disciplina de Jornalismo Climático no mestrado de Jornalismo da ESCS, a única dedicada especificamente a esta área no país.
A existência desta formação surpreendeu alguns dos participantes, que reconheceram a importância de preparar jornalistas para compreender, comunicar e pensar criticamente sobre um dos grandes desafios da humanidade.
A participação do LIACOM na Noite Europeia dos Investigadores contou ainda com uma atividade dedicada à publicidade inclusiva, desenvolvida no âmbito do projeto de investigação +LONGE – Consumo e Idadismo: Expectativas, Significados Culturais e Estereótipos na Publicidade para Consumidores Seniores.
A Noite Europeia dos Investigadores é uma iniciativa anual dinamizada em toda a Europa que tem como objetivo aproximar o público da investigação científica, criando espaços de experimentação, diálogo e participação.
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